Precisamos de comida de verdade: #FRD2013

*Texto de Vanessa Anacleto

Viver bem é o que todos desejamos. E não adianta ignorar este fato: para viver bem é preciso comer bem. Comer é um ato do qual não somos capazes de nos abster e nos últimos 30 anos a alimentação da população vem mudando drasticamente para pior. Precisamos trabalhar e produzir cada vez mais, nosso tempo encurtou e, consequentemente, nossa cultura alimentar está se perdendo. A fast food, que deveria ser exceção, agora é regra. Não nos alimentamos com porcaria industrializada ocasionalmente, comemos comida de verdade ocasionalmente e isto irá nos matar. O ato de preparar a própria comida foi relegado a status inferior em comparação com a comida pronta, a comida rápida, a comida prática. Estamos vivendo em prol da praticidade artificial com sabor artificial, que nos são vendidos junto com um estilo de vida. A nova ordem nos diz que as pessoas modernas não perdem tempo na cozinha. Na verdade, as pessoas hoje arriscam a saúde e suprimem anos de vida comendo coisas que não alimentam e isto não vale a pena.

O conceito do Food Revolution, a revolução da comida proposta pelo cozinheiro inglês Jamie Oliver, é tão simples que espanta. Para salvar a nossa e as próximas gerações precisamos começar fazer algo que a humanidade sempre fez : preparar nossa comida com ingredientes frescos. O que era absolutamente natural para nossos avós foi desaprendido e, para piorar, não existe educação para alimentação nas escolas. A educação alimentar formal é algo que poderia começar a fazer o movimento contrário. Curioso que Oliver não prega alimentação alternativa, a proposta é alimentação pura e simples. Depois de revolucionar a comida servida nas escolas da Inglaterra, Jamie Oliver levou sua ideia para os Estados Unidos, país que acaba de decretar epidemia de obesidade. O terceiro passo foi ampliar o Food Revolution a todos os cantos do planeta e, este ano pela segunda vez, chega ao Brasil uma ação global no dia de hoje.

jamie oliver FRD

Com os esforços de mobilização em torno do Food Revolution Day deste 17 de maio, Jamie Oliver espera levar as pessoas de volta para o lugar de onde jamais deveriam ter saído: a cozinha. Nunca cozinhou? Não é problema. Aprender é permitido. Se não foi com seus pais , que seja agora a hora de cozinhar, experimentar, vivenciar a alquimia do preparo dos alimentos e, principalmente, passar o que você sabe para as crianças, cozinhando com elas, levando-as a conhecer os ingredientes e preparando com elas seja seu prato favorito, seja uma nova receita. O Movimento Infância Livre de Consumismo apoia o #FRD2013 por entender que a perda das habilidades culinárias da população está relacionada ao consumo desenfreado, gera desequilíbrio e sofrimento às crianças. Precisamos resgatar nossa saúde e sem comida de verdade isto não será possível.

FoodRevolutionDay

Nós participamos!

Este artigo faz parte de uma blogagem coletiva promovida pelo site Alimento Puro, onde você pode encontrar uma lista eventos ligados ao #FRD2013 no Brasil . Acesse a página oficial da ação global, onde é possível fazer uma busca por todos os participantes da programação mundial, e também a fan page do MILC, que vem publicando sobre o tema ao longo de toda a semana.

*Vanessa é mãe do Ernesto e só aprendeu a cozinhar quando ele nasceu. Cinco anos depois já é considerada pela cria a melhor cozinheira do mundo, mas sabe que isso é suspeito. É ativista, escritora e edita o blog www.maeetudoigual.com.br

Seus problemas acabaram: cozinha nunca mais!

Texto de Mariana Sá*

Primeiro vamos assistir juntos ao comercial da nova linha de refeições para crianças da Sadia:

Ao ver esta linda obra da mais criativa publicidade brasileira, e sabendo que ele está sendo veiculado em programas infantis, você, dona daquela maternidade crítica, pensa que tem algo de errado. Na sua opinião é uma peça publicitária que se aproveita – e muito - da deficiência de julgamento e experiência da criança, que é algo difícil de provar. Pensa mais e conclui que a belezura deve estar violando algumas regras do Código de Autorregulamentação publicitária.

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O que esta linha de produtos promete entregar na nossa casa? Alimentação saudável para crianças com praticidade.

Alimentação Saudável: o filme publicitário vende um alimento corretamente balanceado para crianças quando entrega aos “minichefs” o pedido da mãe: “pratos nutritivos pras crianças”.

Praticidade: fica claro que vendem quando o locutor diz que a bagunça será feita na cozinha da Sadia e não na minha.

A praticidade eu tenho certeza que o produto entrega: realmente nada mais prático do que comprar, enfiar no freezer, descongelar e servir. Se quiser mais praticidade, sirva na embalagem e nem lave louça. Mas a parte da alimentação saudável tenho sérias dúvidas.

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Você não é nutricionista, nem nutróloga, tampouco engenheira de alimentos, mas possui conhecimentos básicos que lhe permitem ler um rótulo e julgar se é ou não adequado aos seus filhos. Daí resolve buscar mais informações.

Pensa: é congelado, pode não ter conservante, mas vou checar mesmo assim. Você corre para a internet para ver a lista de ingredientes, verificando a quantidade de conservantes… Faz a busca, encontra os produtos no site da Sadia, mas não encontra nenhuma lista de ingredientes. “Vou ter que ir no mercado fotografar estes rótulos!”

Não encontra a lista de ingredientes, mas encontra a linha completa com seus nomes fofos e suas embalagens com os tais dos “minichefs” estampados; “forte apelo infantil”, pensa.

E encontra também as tabelas nutricionais de cada um dos quatro pratos prontos da linha no site da Sadia, que é onde printei todas as tabelas a seguir.

Escondidinho de Frango e Vegetais

 

Parafuso colorido

 

Macarrão com Bolinha

 

Risotinho

Olhando tabela por tabela, item por item, você começa a ter um ataque de pelanca: repara nas grandes quantidades de sódio e que todas as refeições possuem colesterol. E você jurava ter ouvido no comercial que as refeições não têm gordura e colesterol. Não é possível que tenham mentido assim. E volta para a internet para ver o vídeo com mais cuidado.

A locução é clara, você que ouviu errado, a culpa é sua: “Refeições nutritivas com pouca gordura e colesterol.” Também, com tanto vegetal, quem vai conseguir ouvir o pouca?

Sério, sobre o sódio e as necessidades diárias das crianças: cada porção oferece de 24 a 27% das necessidades diária de sódio, isso com base numa dieta de 2.000 calorias. Se pensarmos que uma criança come 1.000 calorias, temos 48 a 54% das necessidades diárias de sal consumidas em apenas uma refeição. Só eu que tive ataque de pelanca com esta informação?

Sobre o colesterol: dois produtos possuem de 8 a 12% das necessidades diárias de um adulto. Wow! E os outros dois possuem 1 a 2%. Ok!

Olhar rótulos e ouvir com cuidado é coisa que pouca gente faz!

pratosaudavel_final_1 (2)
Fonte: Revisa Época - http://glo.bo/10aOAH7

 

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A última locução é a cereja do bolo, afinal comida nutritiva nunca foi uma delícia e agora é, graças aos minichefs… técnica de colocar um retrovisor, você não diz que não era, mas diz que agora é, que ficou, ou seja, não era antes!

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Se você acha que meu ataque de pelanca é exagerado, pense nesta sequência de afirmações se repetindo no juízo de seu filhos até virarem verdade, até seu filho acreditar que a única comida deliciosa é a feita pelos minichefs. Na minha opinião este tipo de publicidade é um desserviço à saúde pública, à infância e à maternidade!

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Agora vamos analisar o texto do filme:

Com uma linda cozinha montada ao fundo, mãe e filha sentadas na mesa. Mãe ao telefone – as duas sorrindo:

- Será que vocês não podiam fazer pratos nutritivos pras crianças com…?

Corta para aquele simpático personagem, o Peru da Sadia, ao telefone, bloco em punho, anotando o pedido da mãe, quando é soterrado por toda sorte de vegetais coloridos, em animação gráfica.

Entra trilha sonora e, num estalo, criaturas animadas e coloridas magicamente aparecem na tela, enquanto uma voz masculina e engraçada interrompe a mãe:

- Isso é um trabalho para os minichefs!

Agora conseguimos ver uma fantástica linha de produção, cheia de vegetais:

- Os mini cozinheiros que deixam tudo gostoso rapidinho e sem fazer bagunça na cozinha!

Um minichef voa atrapalhadamente. A voz continua:

- Bom, não a sua!Close nos pratos coloridos e fumegantes:

- Refeições nutritivas com pouca gordura e colesterol.

Um prato chega na mesa da cozinha e mãe e filha estão de volta à cena sorrindo:

- Huuuum, gostei!

Locutor:

- Sadia Minichefs, comida nutritiva ficou uma delícia.

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Em tempo: só eu acho bizarro congelar macarrão? Porque dois dos quatro pratos são macarrão! Aquela comida que até quem nunca entrou numa cozinha é capaz de fazer e que a maioria das crianças amam de qualquer jeito: basta um azeite de oliva e voilá, nasce um chef, um bigchef!

(*) Mariana Sá é publicitária e mestra em políticas públicas. É mãe de dois e escreve no blog Viciados em colo. Co-fundadora do Movimento Infância Livre de Consumismo, está engajada – junto com o marido – num processo contínuo de mudanças na alimentação da família.

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REFERÊNCIAS NORMATIVAS CITADAS:

(1) Código de Defesa e Proteção do Consumidor

LEI Nº 8.078, DE 11 DE SETEMBRO DE 1990. Dispõe sobre a proteção do consumidor e dá outras providências.

SEÇÃO III
Da Publicidade
(…)
Art. 37. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva.
§ 1° É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços. § 2° É abusiva, dentre outras a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeita valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança.
(grifos meus) (…) Art. 38. O ônus da prova da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária cabe a quem as patrocina.

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(2) Código de Autorregulamentação Publicitária - 

 
Artigo 37 – Os esforços de pais, educadores, autoridades e da comunidade devem encontrar na publicidade fator coadjuvante na formação de cidadãos responsáveis e consumidores conscientes. Diante de tal perspectiva, nenhum anúncio dirigirá apelo imperativo de consumo diretamente à criança.

E mais: (…) II – Quando os produtos forem destinados ao consumo por crianças e adolescentes seus anúncios deverão: (…) respeitar a dignidade, ingenuidade, credulidade, inexperiência e o sentimento de lealdade do público-alvo; dar atenção especial às características psicológicas do público-alvo, presumida sua menor capacidade de discernimento; (…)

Nota: Nesta Seção adotaram-se os parâmetros definidos no art. 2º do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/90): “Considera-se criança, para os efeitos desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade.” 

Anexo H: Alimentos, bebidas, sucos e bebidas assemelhadas

2. Quando o produto for destinado à criança, sua publicidade deverá, ainda, abster-se de qualquer estímulo imperativo de compra ou consumo, especialmente se apresentado por autoridade familiar, escolar, médica, esportiva, cultural ou pública, bem como por personagens que os interpretem, salvo em campanhas educativas, de cunho institucional, que promovam hábitos alimentares saudáveis. (grifos meus)

5. Na publicidade dos produtos submetidos a este Anexo adotar-se-á interpretação a mais restritiva quando: – for apregoado o atributo “produto natural”;
- produto for destinado ao consumo por crianças (grifos meus)

Menos SAL para a criançada

Agora é oficial: a Organização Mundial da Saúde limita a quantidade de sódio para os pequenos. Entenda por que isso pode livrá-los de encrencas futuras.

Texto de Mirtes Aquino*

Em que fase da vida você acha que as preocupações com a hipertensão arterial e o excesso no consumo de sal devem surgir? Se você não é alguém que tenha tido contato recente com a questão, por mais preocupado que esteja com a saúde de sua família, é muito provável que exclua a infância da sua resposta. Entretanto, já foi o tempo em que este distúrbio era exclusividade dos mais velhos, como afirma a revista Saúde é vital em sua edição de abril de 2013.

Segundo a publicação, à medida que o cardápio da meninada foi invadido por alimentos industrializados e ricos em sódio, problemas de pressão alta foram se tornando cada vez mais precoces. O fato chamou a atenção inclusive da Organização Mundial da Saúde (OMS), que faz um alerta ainda mais grave: o distúrbio tem enorme probabilidade de se perpetuar na vida adulta. Por isso, a OMS passa a recomendar uma ingestão de menos de 2 gramas de sódio por dia para quem tem entre 2 e 15 anos.

sodio_maleficio salgado

Mas onde o sódio pode ser encontrado? Eis a grande questão! Ainda segundo a reportagem, o mineral, que estende o prazo de validade dos alimentos, está presente na maioria dos produtos consumidos (e adorados) pelas crianças, como bolachas recheadas, pães, comidas de fast food e os famosos salgadinhos. Uma olhada na imagem abaixo deixa claro que os alimentos que a indústria alimentícia nos convenceu que são pertencentes à categoria de “comida para criança” possuem altas taxas de sódio, tornando extremamente fácil que uma criança assim alimentada exceda o limite recomendado pela OMS – chega a ser assustador que um pacotinho de macarrão instantâneo possua quase 70% deste limite.

de onde vem o sodio

O que o crescimento do consumo de guloseimas e junkfood tem trazido é o avanço entre as crianças da chamada hipertensão primária, aquela que não tem razão específica e até alguns anos era rara na infância. As estimativas da Sociedade Brasileira de Cardiologia apontam para 6% a 8% das crianças brasileiras já hipertensas. O mais assustador nisso tudo é que a hipertensão é um assassino silencioso, com uma minoria dos pacientes apresentando sintomas.

Além da ingestão excessiva de sódio, é preciso destacar a herança genética e a obesidade como fatores determinantes da hipertensão na infância. Para Aline Maria Pereira, nutricionista da Unifesp, quanto mais tempo uma criança ou adolescente permanecer acima do peso, maior é a probabilidade de virar hipertensa e apresentar doenças cardiovasculares no início da fase adulta.

As recomendações da reportagem para prevenir e atacar este mal não trazem nenhuma novidade para os que se preocupam com a alimentação das crianças: introduzir hábitos saudáveis desde cedo e retardar/reduzir a oferta de industrializados, com destaque para a amamentação exclusiva nos 6 primeiros meses de vida.

Entretanto, apesar da fácil compreensão, estas regras apresentam-se como um desafio para quem tem crianças diariamente bombardeadas pelos apelos da mídia alimentícia, sempre pronta para chegar a elas através de personagens e situações que lhes sejam atraentes. Além disso, os adultos também são atingidos pela mídia e suas promessas de praticidade e enriquecimento nutritivo dos alimentos industrializados. Parece que para manter nossas crianças saudáveis é preciso cada vez mais remar contra a maré publicitária!

*Mirtes é economista, funcionária pública e mãe da Letícia, que há 6 anos a ensina que é possível construir um mundo melhor.

Sódio, vilão silencioso

Texto de Renata Kotscho Velloso*

Crianças e adolescentes têm consumido em média a mesma quantidade de sódio que os adultos, o que pode trazer sérios riscos à saúde. O aumento da pressão arterial é uma grave consequência do consumo elevado de sódio. A doença, que até pouco tempo era praticamente exclusiva dos adultos, tem afetado um número cada vez maior de crianças, principalmente aquelas com excesso de peso.

Um estudo publicado pela revista Pediatrics em setembro do ano passado analisou a dieta e a pressão arterial de mais de 6 mil crianças entre 8 e 18 anos nos Estados Unidos.

O estudo concluiu que as crianças e adolescentes americanos consomem em média 3.387 miligramas de sódio por dia, um valor semelhante ao consumo dos adultos e bem superior aos 2.300 miligramas recomendados para crianças acima de 2 anos.

O estudo descobriu também que existe uma relação importante entre o consumo de sódio e a elevação da pressão arterial. Para as crianças com peso normal, para cada 1.000 miligramas a mais de sódio consumido por dia, o risco de aumento da pressão apresentou aumento de 6%. Mas o quadro mais drástico é o das crianças obesas ou com sobrepeso (mais de um terço da amostra); para elas o aumento de 1.000 miligramas no consumo diário de sal gerou uma elevação de 74% do risco de hipertensão.

Hoje cerca de 14% dos adolescentes americanos sofrem de hipertensão, um valor que chega a 25% entre aqueles estão acima do peso.

A grande dificuldade de se reduzir a quantidade de sódio na dieta é que boa parte dele, especialmente no caso das crianças, não vem do sal que é adicionado como tempero à comida, e sim de produtos industrializados com alto teor de sódio. Entre os principais vilões estão a pizza congelada, sopas entaladas, macarrão instantâneo e embutidos em geral como salame, presunto e peito de peru.

O aumento da pressão arterial está associado a doenças importantes como infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral, bem como insuficiência renal. É uma doença silenciosa, que não apresenta sintomas até que o quadro se agrave.

Para evitar o risco de pressão alta, as crianças devem aumentar o consumo de frutas e vegetais e também praticar mais atividade física. O aumento da pressão arterial depende de muitos fatores, mas, em geral, conseguimos reduzir o risco tendo uma dieta e um estilo de vida saudáveis.

*Renata é mãe de 3 meninas: Luiza, Julia e Clara. Médica formada pela Unicamp, em Campinas, mora há um ano com sua família na Califórnia. Sua filha Julia é autora do blog Chef Juju, com muitas receitas gostosas.

Mães

Texto de Aldo Masini*

- Pai. Fala que não é pra mãe ir no jogo de queimada da minha irmã? Por favor pai, não deixa ela ir.

- Como assim, Juninho?

- É, pai, não quero que ela vá jogar queimada na escola com a Rosaninha.

- Mas que mazela é essa agora filho? No Dia dos Pais eu não fui jogar futebol na escola com você, seus amigos e os pais deles?

- Foi.

- Então, querido. Agora é Dia das Mães e a escola faz a mesma homenagem às mães com o jogo de queimada de mães e filhas.

- Mas eu não quero que a minha mãe vá nesse.

- Está com ciúme da sua irmã, né?

- Não é nada disso, pai. Só não quero.

- Até onde me lembro, no ano passado você não criou caso. Ao contrário, me lembro de você torcendo pelo time delas e até ajudou a consolar sua irmã dizendo que este ano elas ganhariam.

- Ano passado eu tinha só sete anos, agora estou mais velho. Não deixa pai, por favor.

- Mas por que você está implicando com isso agora?

- Eu fico com vergonha.

- Que bobagem, filho. É só um jogo. Perder ou ganhar faz parte da brincadeira.

- Mas os meninos ficam me enchendo o saco depois.

- Ah, então é isso. Você ficou bravo porque fizeram gozação.

- É.

- Bobagem, querido, as outras mães eram tão ruins de queimada quanto a sua.

- A mãe não é ruim de queimada, ela joga até muito bem.

- Ah, é? Então o que te incomoda?

- Me incomodam os meninos do quinto ano falando que minha mãe tem o sorriso mais bonito, o perfume mais cheiroso e as pernas mais gostosas.

Feliz Dia das Mães.

Porque a beleza de vocês é de outra ordem.

Vai muito além do sorriso, do perfume ou das pernas.

dia das maes Lu Azevedo

Imagem de Luciana Azevedo

*Aldo Masini é funcionário público em São Paulo capital, tem especialização em Gestão Ambiental e Educação, é tio de três sobrinhos que constantemente lhe ensinam caminhos mais bonitos e se aproximou do MILC por ser um cara preocupado com nossa relação com o consumismo e a forma danosa com que isso invadiu o mundo de crianças e jovens. Escreve no blog My Thoughts.

Com a palavra, a nutricionista: tirando dúvidas sobre aditivos e conservantes alimentícios

Em virtude do intenso debate acerca do post “A maçã do palhaço”, o Movimento Infância Livre de Consumismo saiu em busca de socorro para prestar alguns esclarecimentos. A entrevista a seguir foi baseada nas dúvidas e nos comentários de nossos leitores.

apple close nos ingredientes

E quem veio em nosso socorro foi Manoela Pessanha da Penha, nutricionista formada pela UNIRIO. Docente do curso de Nutrição da UNESA, ministra as disciplinas de Tecnologia de Alimentos e Higiene e Legislação de Alimentos. Doutoranda em Ciência de Alimentos pela UFRJ, atua na pesquisa na área de Microbiologia Industrial e Biotecnologia. É Mestre em Ciência de Alimentos pela UFRJ e Especialista em Gestão da Segurança de Alimentos pelo SENAC.

Movimento Infância Livre de Consumismo: Conservantes sintéticos adicionados aos alimentos podem ser considerados naturais pelo simples fato de serem componentes químicos existentes de alguma forma na natureza? O que ocorre quando um componente natural é extraído, sintetizado e acrescentado separadamente a alimentos em que ele não existia naturalmente? Ao serem sintetizados e adicionados aos alimentos em processos industriais, esses aditivos continuam tendo a mesma função que têm na natureza?

Manoela Pessanha da Penha: Os aditivos utilizados na indústria de alimentos podem ser naturais ou artificiais. Os componentes que são extraídos da natureza (animais, plantas, microrganismos) serão denominados naturais. Dentre os artificiais temos os idênticos ao natural, que são compostos semelhantes aos que temos na natureza, mas produzidos em laboratório, e os sintéticos, compostos quimicamente definidos em laboratório que não existem na natureza. No entanto, quimicamente, os compostos produzidos em laboratório e que se assemelham aos que temos na natureza terão a mesma função quando adicionados a um alimento. Mas devemos levar em consideração que, na natureza, temos outros componentes naturais que poderão interagir entre si, apresentando funções diferenciadas quando o composto se apresentar isoladamente, na forma de um aditivo a ser inserido em um alimento.

MILC: Adicionar INS 300 (ácido ascórbico) e INS 509 (cloreto de cálcio) à maçã tem exatamente o mesmo efeito de se adicionar suco de laranja ou sumo de limão para impedir que a fruta escureça e/ou fique “borrachuda”?

Manoela: Em parte sim. O ácido ascórbico, presente em quantidades significativas no suco de laranja ou sumo de limão, ajuda na prevenção do escurecimento de frutas, por ter efeito contra a oxidação de compostos fenólicos que podem levar ao escurecimento das mesmas. Embora o cloreto de cálcio impeça que a fruta fique “borrachuda”, não o encontramos disponível em alimentos para ser adicionado para conservação em outros alimentos, somente o encontramos na forma de aditivo para esta finalidade. Por isso, sim, adicionar INS 300 (ácido ascórbico) ou suco de laranja ou sumo de limão teremos o mesmo efeito sobre impedir o escurecimento da fruta, mas não em relação à manutenção da textura íntegra da fruta, uma vez que tanto o suco de laranja quanto o sumo de limão não possuem quantidade suficiente de cloreto de cálcio para que tenhamos o mesmo efeito da adição do aditivo INS 509 (cloreto de cálcio) isoladamente.

MILC: Como profissional e pesquisadora da área de nutrição e tecnologia de alimentos, o que você acha de iniciativas das redes de fast food em geral de oferecer em seus cardápios opções consideradas saudáveis? Podemos afirmar com segurança que tais alimentos pecam pela falta de frescor e são usadas como ferramentas de marketing para melhorar a imagem corporativa?

Manoela: O oferecimento de opções consideradas saudáveis é, sim, uma ferramenta de marketing para que a rede de fast food se mantenha no mercado, mas também é uma iniciativa de estímulo à escolha de opções saudáveis para que a responsabilidade dessa escolha passe para o consumidor, eximindo a indústria da sua responsabilidade com a saúde dos mesmos, já que ela também oferece opções consideradas saudáveis, cabendo ao consumidor fazer as melhores escolhas. Não podemos afirmar com segurança a falta de frescor dos alimentos, mas geram-se dúvidas com relação à procedência e segurança desses produtos comercializados, uma vez que não é um tipo de alimento que faz parte da rotina dos consumidores desse tipo de rede de alimentação nem da rotina de compras da própria rede de fast food.

MILC: A adição de vitaminas e minerais sintetizados aos produtos alimentícios industrializados tornam esses produtos saudáveis?

Manoela: Em parte. A adição de vitaminas e minerais sintéticos aos produtos industrializados tem um objetivo tecnológico, como recuperar essas substâncias que podem ter sido perdidas durante o processamento dos alimentos, sem o propósito de nutrir. No entanto, dependendo da quantidade adicionada de vitaminas e minerais, podemos ter produtos enriquecidos nutricionalmente, onde porções de determinado alimento enriquecido possam ser capazes de suprir as necessidades diárias de ingestão de determinada vitamina ou mineral, mesmo que seja sintético e tenha sido adicionado ao produto alimentício. Mas devemos lembrar sempre que é necessário levar em consideração os demais itens presentes na composição do alimento, além das vitaminas e minerais que possivelmente foram adicionados, para que os consideremos saudáveis ou não.

MILC: Todos os aditivos aprovados pela Anvisa são saudáveis e podem ser consumidos sem restrição? Alguns leitores argumentam que, por serem liberados pela Anvisa, são totalmente seguros. Os produtos vendidos em mercados e lojas de fast food são todos liberados pela Anvisa. Essa aprovação é sinal de segurança e saúde sempre?

Manoela: A aprovação e liberação pela Anvisa nos informam sobre o grau alimentício desses aditivos, ou seja, se são seguros para serem utilizados em alimentos e, portanto, para o consumo humano, desde que nas proporções corretas quando adicionados aos produtos alimentícios na indústria. Além disso, a Anvisa considera a quantidade do aditivo por porção de produto e que, se aprovado e liberado para consumo, a quantidade por porção de alimento não traz risco à saúde do consumidor. No entanto, o consumo de alimentos acima das porções recomendadas e de diversos produtos contendo esses tipos de substâncias pode levar o consumidor à ingestão de teores acima do limite considerado seguro para consumo, o que não é uma prática saudável e nem segura para o consumidor.

MILC: E as saladas vendidas nas redes de fast food, são conservadas de que maneira? Quanto tempo podem durar as frutas, verduras e legumes conservados assim? Diversos leitores informaram ter guardado a maçã na geladeira por cerca de um mês ou mais sem observar nenhuma alteração na aparência da fruta. Em um perfil pessoal em que o post foi compartilhado, uma pessoa informou que a maçã foi aberta e esquecida dentro do carro por dois dias e continuava aparentando ter sido cortada na hora. Como esses fenômenos podem ser explicados? A fruta, além de manter a aparência, mantém também os nutrientes?

Manoela: Normalmente, as saladas vendidas em fast food sofrem um processo conhecido como branqueamento, para inativação enzimática e consequente conservação. No branqueamento, os vegetais são submetidos a banhos de imersão por água ou vapor d’água aquecidos a menos de 100ºC por alguns minutos e depois rapidamente resfriados a temperaturas inferiores à temperatura ambiente. Além disso há a adição de conservadores químicos, que mantém a integridade do produto por mais tempo. No entanto, a integridade física do produto não é sinônimo de preservação de nutrientes, que podem ter sido perdidos durante o armazenamento, devido às diferentes temperaturas às quais os produtos podem ser submetidos ou até mesmo pela interação com outras substâncias adicionadas com o intuito de preservar o alimento.

MILC: Diversos leitores mencionaram que o sabor da maçã da rede parece falso e é estranho. Entre esses comentários, destacamos “tem cheiro e gosto de esmalte”, “parece estragada”, “minha filha não come, diz que não tem gosto de maçã” e assim por diante. O que pode explicar essas sensações?

Manoela: Talvez seja pelos conservantes que podem ter sido adicionados à fruta para que a mesma permaneça íntegra por mais tempo. E os consumidores que já possuem o hábito de comer frutas frescas podem estranhar quando consomem frutas conservadas com aditivos químicos.

MILC: As maçãs e outros alimentos naturais poderiam ser vendidos “in natura” pelas redes de fast food? Os padrões de higiene e manipulação desses locais permitem o manuseio dessa forma?

Manoela: Podem, sim, ser vendidos pelas redes de fast food, desde que se adequem aos procedimentos de controle higiênico-sanitário para esse tipo de alimento. Redes de fast food, restaurantes, lanchonetes, rotisserias e outros estabelecimentos produtores e comercializadores de alimentos devem estar de acordo com as normas higiênico-sanitárias estabelecidas pela legislação vigente no país (RDC 216/2004 – ANVISA), independente do tipo de alimento comercializado. O que vemos é que o padrão de higiene e manipulação de alimentos nesse tipo de estabelecimento e em outros estabelecimentos também não atende as exigências da legislação, estando diversos parâmetros em não conformidade, o que pode trazer riscos à saúde do consumidor.

Uma semana longe das telas

Texto de Renata Kotscho Velloso*, baseado em artigo do site education.com

A tecnologia vem ocupando um espaço cada vez maior na área de educação infantil, mas, na hora do entretenimento, as crianças também têm passado cada vez mais tempo em frente às telas. A maioria dos especialistas da área de desenvolvimento infantil concorda: as crianças têm ficado tempo demais na frente da televisão ou do computador.

A Academia Americana de Pediatria recomenda que uma criança com menos de 2 anos não fique tempo algum em frente a uma tela e limita a duas horas por dia o tempo máximo para uma criança maior. Apesar disso, as estatísticas americanas mostram que 40% dos bebês de 3 meses assistem TV regularmente e 19% dos bebês com menos de 1 ano têm TV no quarto. Estudos mostram que o uso da TV aumenta conforme a idade: crianças americanas entre 8-18 anos gastam em média 4 horas e meia na frente da TV, 1 hora e meia no computador e mais de 1 hora jogando video game – por dia! No Brasil as estatísticas não são muito diferentes: estima-se que a criança brasileira fique em média 5 horas por dia na frente da telinha.

O que há de tão errado com a tela? Bem, aqui vão algumas evidências:

  • Assistir TV antes dos 3 anos de idade está relacionado a alterações no padrão de sono e atraso na aquisição da linguagem.
  • Crianças pequenas que assistem TV têm mais chances de apresentar problemas mais tarde, incluindo pior desempenho em matemática, sobrepeso e aumento da agressividade infantil.
  • Quanto mais tempo a criança fica na frente da tela, menos tempo ela gasta brincando livremente, o que muitos especialistas consideram a base para a aquisição de habilidades como solução de problemas, capacidade de aprendizado e criatividade.
  • No caso de crianças mais velhas, o tempo gasto em frente a telas está associado a obesidade, distúrbios do sono e dificuldade de concentração.

semana_sem_telas

Como seria a vida da sua família sem telas para entretenimento? O Projeto Criança e Consumo está propondo, entre 29 de abril e 5 de maio, uma semana sem telas. Vamos aderir?

*Renata é mãe de 3 meninas: Luiza, Julia e Clara. Médica formada pela Unicamp, em Campinas, mora há um ano com sua família na Califórnia. Sua filha Julia é autora do blog Chef Juju com muitas receitas gostosas.

Cantinas escolares na Itália

Texto de Allan Robert PJ*

Noutro dia, trocando mensagens com a amiga Silvia Düssel Schiros, comentávamos a notícia de que algumas escolas adotaram um cartão eletrônico para permitir que os pais controlassem o consumo dos filhos nas cantinas escolares. A Silvia acabou pedindo que eu falasse mais sobre a minha experiência na Itália – onde moro com minha esposa e duas filhas desde 1999 – e sobre como são as cantinas escolares por aqui. Escreveu a Silvia:

“Eu sou super a favor de uma reformulação total nas cantinas escolares, que acredito que devam assumir de vez o papel de *educadoras*!

De que adianta as crianças aprenderem, na aula de ciências, como ter uma alimentação saudável se, na hora do recreio, não têm acesso a uma cantina livre de porcarias?

Acho que nunca vou entender.”

Como funciona na minha região

O sistema escolar italiano se divide em scuola elementare (corresponde ao nosso antigo primário), com cinco anos de duração, onde se ingressa com seis anos de idade; scuola media (o nosso antigo ginásio), com três anos de duração; scuola media superiore (corresponde ao nosso segundo grau), com três ou cinco anos de duração, podendo ou não ser profissionalizante; e università (universidade).

Pois bem, não sei se a regra vale para toda a Itália, mas na Emilia-Romagna – região onde está localizada a cidade de Piacenza, na qual moramos – as cantinas escolares funcionam assim: nada de máquinas de self-service nas escolas de ensino fundamental I e II. A partir do ensino médio, as máquinas estão liberadas. Na escola elementar, pode-se optar por aula em período integral, das 8:00 às 16:30 h, de segunda a sexta, ou meio período, das 8:00 às 12:30 h, de segunda a sábado. A maioria opta pelo período integral, o que faz com que a criança almoce na escola. E é aí a grande diferença. Estas escolas não possuem cantinas, apenas refeitórios, e a alimentação é controlada e balanceada por nutricionistas. Lanche matinal: fruta; almoço: primeiro prato de massa, pizza ou risotto, segundo prato de carne (carne de vaca, frango ou peixe, dependendo do dia) com salada e verdura, sobremesa (doce e fruta); lanche vespertino: fruta ou doce (geralmente uma torta – crostata – de fruta). Usa-se somente produtos da estação (mais frescos, mais nutrientes e sem tanto agrotóxico), de preferência, a quilômetro zero – produzidos na região e com custos inferiores aos produtos fora de época ou de outras regiões. De quebra, a agricultura e a economia local ganham e sobrevivem.

cantina italiana

Imagem daqui

O pulo do gato: as crianças são divididas em grupos fixos nas diversas mesas do refeitório. Todas as crianças devem comer de tudo, caso contrário a mesa não ganha a estrelinha semanal no mural do refeitório. As professoras almoçam com as crianças e dão muito valor à estrelinha, incentivando a boa alimentação. Todas as crianças se sentem responsáveis e poucas vezes alguém recusa alguma coisa.

Também não é permitida a introdução de bebidas industrializadas. Só água. Nas festas de aniversário comemoradas nas escolas com um bolo e suco, o bolo deve ser comprado em alguma doceria conhecida ou indicada pela escola, para evitar riscos de contaminação. Em toda a Comunidade Europeia é obrigatória a aplicação do programa de autocontrole alimentar APPCC (HACCP) nas docerias, bares, restaurantes, refeitórios etc., e a escola só pode permitir o consumo de alimentos controlados. Na escola média, durante o recreio, comem o que levarem de casa. Não existe cantina nem refeitório. Minhas meninas levavam frutas secas; eu separava 4 castanhas do Pará, quatro metades de nozes, quatro ou cinco amêndoas, um punhado de castanhas de cajú e um de avelãs, tudo dentro de um potinho plástico com tampa. Água da torneira. Até hoje preparo as frutas secas, apesar da Luiza estar na média superior e a Bianca na faculdade.

A partir da escola média, as aulas são somente no período da manhã, mas aí as crianças já aprenderam a comer de tudo. Claro que em casa a comida é diferente da escola. Serão os hábitos alimentares dos pais a guiar os filhos a partir da conclusão da escola elementar mas, até lá, os filhos terão sido acostumados a comer de tudo. O resultado é que aqui em casa come-se bem e não sobra abobrinha ou brócolis no prato de ninguém.

Pois é, Silvia! Eu também não vou entender nunca uma cantina escolar que permite o acesso a porcarias. Se a cantina está dentro da escola, faz parte da escola. Como tal, deveria participar do processo educativo. Senão, que escola é?

*Allan Robert PJ é autor do blog Carta da Itália, colaborador do Faça a sua parte e acaba de lançar o livro Carta da Itália: hábitos, descobertas e sabores da cultura italiana.

A maçã do palhaço

Texto de Maria da Silva*

No início de março, fui com minha família a um aniversário na lanchonete do palhaço. Já frequentei muitas vezes esta rede de fast food, principalmente na adolescência, mas desde que minha filha foi apresentada ao mundo dos alimentos sólidos, o que me introduziu no mundo das reflexões sobre alimentação saudável, eu não frequento suas lanchonetes. E por sorte do destino, até então nenhum convite destes tinha surgido. Aliás, quando o convite chegou, vivi alguns minutos de impasse, com uma vontade enorme de ignorá-lo e tocar a vida como se nada tivesse acontecido. Mas o aniversariante é uma criança muito próxima e querida de nós. Então respirei fundo, comprei o presente e fiquei me repetindo que uma vezinha na vida não traria tantos danos.

Quando a garçonete chegou, minha filha, que tem mais dedos numa mão que lanches comidos nesta rede em seus 6 anos de vida, não hesitou em pedir o lanche do brinde. O marido pediu uma oferta qualquer, e eu fiquei lá, com o cardápio na mão sem saber o que pedir. Perguntei à garçonete se algum daqueles sucos era da fruta – chega a ser uma pergunta estúpida, né? Disse que pediria depois e fiquei conversando e rindo, que é o que realmente importa em uma festa de aniversário. Alguns minutos depois ouvi alguém perguntar ao filho se comeria a maçã, e um sorriso me veio ao rosto.

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A maçã, claro! Lembro-me bem quando a rede de fast food alardeou em todos os meios de comunicação que se preocupava em tornar seus lanches mais saudáveis, introduzindo maçã. Mas como já não frequentava mais a lanchonete na época, nunca soube como a maçã era servida. E lá estava um pacotinho plástico com a logomarca da rede e alguns pedaços de maçã dentro. Foi meu marido quem levantou a questão: “Nem sei se vale a pena comer! Como essa maçã não fica escura?” É verdade! As fatias da fruta estavam como se tivessem acabado de ser cortadas. Virei a embalagem em busca da lista de ingredientes, o que, convenhamos, é algo um tanto esdrúxulo, já que maçã é feita de… MAÇÃ!!! Aha! Mas não a maçã do lanche feliz, que além de maçã possui antioxidante INS 300 e estabilizante INS 509 – eis o segredo para elas permanecerem por tanto tempo como se tivessem sido cortadas naquele segundo! Aliás, quanto tempo será que aqueles pedaços de maçã estavam naquela embalagem? Resolvi aceitar o copinho de água que a garçonete passou oferecendo enquanto lamentava a minha ignorância e ingenuidade de pensar que a maçã do lanche era simplesmente a fruta inteira e lavada, como a propaganda sugere.

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Chegou a hora dos parabéns, e quando o aniversariante começou a cortar o bolo pensei que talvez este não tivesse sido feito pela lanchonete. Aproveitei que estava ao lado de uma garçonete e perguntei: “Esse bolo também foi feito por vocês?”. “Não, os bolos vêm de São Paulo”. Arregalei os olhos incrédula: “Vêm de onde?”. “De São Paulo”, ela confirmou. Vejam bem, eu moro no Nordeste, e aquele aparentemente inofensivo bolo de chocolate, feito sabe-se lá quando, viajou quase 2.000 km para chegar até a minha frente. Voltei pra mesa tentando lembrar o que tinha na minha cozinha que pudesse ser comido imediatamente.

Já dentro do carro, de volta para casa, ouvi minha filha dizer: “Engraçado, né? Nem parecia uma festa de aniversário!”. É verdade, não parecia mesmo. Tirando a amizade e o carinho entre as pessoas, tudo ali era artificial demais, plastificado demais, “conservado” demais. E eu fico aqui pensando como eles conseguiram convencer a população em geral de que ali é lugar de alegria e alimentação para crianças. A infância realmente precisa de mais respeito!

Em tempo: para ter o direito de tirar a foto do pacote de maçã, fui à lanchonete comprá-la fora do combo (que, claro, não me interessa) e paguei inacreditáveis 4 reais por 35g de maçã, como pode ser constatado na foto abaixo.

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*Maria é mãe de uma menina de 6 anos e acredita que um futuro feliz depende de uma infância respeitada hoje. Ela assina sob um pseudônimo para preservar a identidade das pessoas envolvidas.

Doçura mortal?

Texto de Renata Kotscho Velloso*

O açúcar, não a gordura, é o vilão mortal responsável pela atual epidemia de obesidade.

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No artigo publicado em março deste ano pelo The Guardian, o pesquisador e pediatra norte-americano Dr. Robert Lustig aponta o açúcar como principal responsável pela obesidade, principalmente das crianças.

Segundo Lustig, estamos entupindo nossas crianças de açúcar na forma de cereais, bebidas açucaradas e outros produtos industrializados. Hoje praticamente qualquer comida industrializada, dos pães ao molho de tomate, passando por congelados, contém açúcar.

A indústria tornou o açúcar um ingrediente fundamental em tudo o que compramos para comer. Ela fez isso porque sabe que assim compramos mais. E o pesquisador continua desafiando: “Se uma empresa de cereais colocasse morfina no produto, o que você pensaria? Então eles colocam açúcar no lugar”.

Isso mesmo: para o Dr. Lustig, os danos causados pelo açúcar a nossa saúde podem ser comparados àqueles causados por drogas como cocaína e morfina. Para ele todos são mortais, tóxicos e viciantes. Segundo ele “nós precisamos nos desintoxicar, desaçucarar nossas vidas. O açúcar deve ser encarado como uma guloseima eventual e não a base da nossa dieta.”

O pesquisador, autor do livro Fat Chance: The Bitter Truth about Sugar (“Sem chance: a amarga verdade sobre o açúcar”), estuda os efeitos do açúcar no nosso organismo há mais de 16 anos. A conclusão principal é que 70 a 80% da obesidade é causada pelo excesso de produção de insulina. Mas a insulina é produzida a partir da nossa alimentação, e o açúcar é o principal gatilho, além de gorduras trans e álcool. Por isso para o pesquisador é fundamental controlarmos o açúcar que as nossas crianças estão consumindo :“Fizemos uma guerra contra a gordura trans e as crianças não consomem álcool, então fica óbvio que o que está deixando elas doentes é o açúcar.”

*Renata é mãe de 3 meninas: Luiza, Julia e Clara. Médica formada pela Unicamp, em Campinas, mora há um ano com sua família na Califórnia. Sua filha Julia é autora do blog Chef Juju com muitas receitas gostosas.